sexta-feira, 29 de julho de 2016

Caretas de Paris, New York, sem mágoas estamos aí



Faz duas semanas. Uma eternidade para esses tempos efêmeros cujos segundos transformam a paz numa tormenta (notícias, atentados, e tome novidades que não damos conta). Mas vi Freehelds, ou o Amor por direito em português.

Julianne Moore e Ellen Page encenando uma história real e trazendo à tona a briga por um direito simples: o reconhecimento da união entre duas pessoas do mesmo sexo.

A atriz de "As Horas" agora é Laurel Hester, uma policial dedicada, responsável pela investigação de casos importantes - como o de tráfico de drogas - em sua cidade, nos Estados Unidos. É respeitada pelos colegas e tem um parceiro de atuação na polícia que ~ no papel de galã ~ claramente espera por uma brecha para tentar algo com ela. Um dia, numa dessas missões de trabalho Laurel conhece Stacie Andree .

Como na vida real, a dificuldade de reconhecimento e espaço na sociedade acontece o tempo todo. Laurel Hester não sai do armário no trabalho para não perder o respeito dos colegas, também não tem contato com familiares. Stacie por sua vez tem o apoio da mãe. Ficam juntas e compram uma casa, mas permanecem se apresentando como "roommates".

Mas na vida como ela é não adianta fazer planos para viver para sempre à sombra. Ela vai fundo e incomoda quem não quer ser incomodado e tira quem não quer incomodar do que eu chamaria de zona de conforto. E foi o que aconteceu.

Laurel descobre um câncer. No início dos anos 2000, quando os tratamentos ainda eram mais precários que agora. Sabe que seu tempo na Terra é curto e quer deixar sua casa para sua mulher. Mas a polícia não permite, vai contra as regras.

É quando um representante da causa gay resolve fazer barulho. Arruma um monte de gente para ir até o tribunal especial da polícia e incomodar. Dizer 'ei, estamos aqui e não vamos dar sossego enquanto não nos enxergarem e derem a Laurel o mínimo'.

Um parágrafo importante:
Laurel não queria gravar vídeo, nem participar de nada porque não queria ser parte de uma "bandeira". Apenas queria seu direito de igualdade. Algo que acontece muito neste universo e em muitos outros. Quem queria ser considerada feminista há dois anos? Mulheres esclarecidas e até algumas de esquerda preferiam não se comprometer com o termo porque as "feministas eram radicais".
Hoje muitas destas mulheres mudaram de ideia e se posicionam como tal. Uma onda muito forte trouxe para o Ocidente o poder da mulher à tona. Elas ocuparam a presidência de países, ganharam maior representatividade na sociedade e a oportunidade de se expressar que antes era brecada.
E quem ficou no seu sofá que me desculpe, mas isso foi graças àquelas que eram chamadas de radicais. Então não existe isso de radical. O que existe é gente covarde e gente corajosa. Ponto.

E no filme, Laurel estava ocupando esse lugar. "A saída é individual", muitos também dizem isso. Ela não queria se posicionar a favor dos direitos dos gays, como casamento, adoção e etc. Queria igualdade de direitos e que pudesse deixar a casa para sua mulher. Ignorando tudo o que já havia sido lutado por outras pessoas a respeito disso.

Mas foi graças a uma bicha ativista maravilhosa que o caso ganhou força, o tribunal ficou cheio de gente e repercutiu nos jornais. E assim ela conseguiu o direito de deixar a casa.

Isso me lembra uma história. Aos 20, eu dizia categoricamente: "meus pais não precisam viver isso, minha família não precisa conviver, vivo bem sozinha e longe". Dividia isso com uma amiga 10 anos mais velha que já tinha passado pelo mesmo e ela rebatia: "e se a outra pessoa fizer questão?".
É isso. Vivemos em sociedade. A saída para uns pode até ser individual. Mas eu não quero ser um indivíduo que fica dentro de casa quietinho para não incomodar.

Então é necessário reconhecer o que já foi feito até aqui. Pelos ativistas gays. Pelas ativistas feministas. Porque parece muito cômodo apenas aceitar de bom grado não termos mais que pedir licença para existir. Temos que avançar onde pararam. Mas sem deixar de reconhecê-los.

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