Você já deve ter reparado que algumas marcas optam por fazer sua
divulgação e sua interação com seu público de forma caseira. A
lanchonete nova que abriu e divulga seus produtos, a academia do bairro e
por aí vai. Muitos alegam a grana curta para não contratarem um
profissional de comunicação. Mas o barato pode sair caro. Quando a
intenção do pequeno empresário ultrapassa ter um canal para que o
cliente possa encontrá-lo e passa a querer fazer ele próprio a
estratégia e a inserção de conteúdo, ele pode vir a ter problemas.
No início de 2015 me matriculei num box de CrossFit em São Paulo, por lá
fiquei durante um ano. Encontrei pessoas muito dedicadas à modalidade,
profissionais sérios e preocupados com a execução técnica dos exercícios
e com responsabilidade com as cargas dos alunos. O ambiente, embora
muito mais cordial e menos narcisista do que qualquer academia de
musculação, é impregnado de machismo. Tentava ignorar isto, afinal eu
estava ali para praticar exercícios e finalmente tinha achado um que me
motivava. Encontrei uma boa professora e me aliei a ela para diminuir a
irritação com comentários do tipo "dê danoninho sem colher para o seu
filho desde cedo porque ele vai saber direitinho como fazer sexo oral".
Depois de um tempo, entrei no grupo do WhatsApp do tal box para receber
informações sobre osteopatas, promoções de pasta de amendoim e outras
particularidades de quem pratica este esporte. Na sexta-feira, a
clássica guerra dos sexos. Homens mandam fotos de mulheres bundudas e
peitudas, mulheres mandam um musculoso com barriga de tanquinho. Até aí,
sobrevivi.
A rede de boxes mantém no Facebook páginas com
informações em cada uma de suas unidades. Em um infeliz post sobre o
Dias Internacional das Mulheres, comemorado no dia 8 de março, o grupo
fez uma homenagem às frequentadoras dos boxes. Em uma ideia de mau gosto
de usar duplo sentido ou - quem sabe e como se defendem os sócios da
rede - por uma infeliz coincidência, planejaram o treino apenas com
Snatchs e disseram que o treino tinha sido desenhado especialmente para
as mulheres. Snatch, dentro do CrossFit, quer dizer arranco. Na gíria
popular americana, significa o órgão genital da mulher.
Pois bem, após uma mensagem de Feliz Dias das Mulheres no tal grupo do
WhatsApp, uma frequentadora de uma das unidades reclamou e pontuou o
machismo - proposital ou inconsciente - inserido naquele post na página
do Facebook. Contestou e criticou a necessidade de nós mulheres nos
posicionarmos e também de quem fez o post refletir sobre isso. Ela
sinalizou que o ambiente por si já é machista e reproduz o que a
sociedade faz lá fora do box. Algo que deveria ser minimamente ouvido.
Quem fez o anúncio foi um dos sócios da rede, que tem alguma outra
profissão além de ser sócio e praticante do esporte. Ele pode entender
muito de negócios e também de CrossFit, mas pareceu não entender nada de
planejamento e de gerenciamento de crise.
No mesmo grupo do WhatsApp ele deu a entender que não tinha feito piada
machista e que Snatch deveria ser lido como arranco. E que se a
sociedade é machista e se eles reproduzem isso ou não, ele não se
importa, nem vai opinar. Se eximiu da responsabilidade de assumir o erro
e ainda jogou a bola para a aluna - que antes de mais nada é uma
mulher, o público a quem a sua mensagem se destinava e cliente dele -
dizendo que devemos levar o mundo menos a sério.
Ora, além de
cometer o erro, diz que o público/cliente é que está errada em se sentir
ofendida. Não bastasse isso, um outro sócio veio defender o amigo - no
mesmo grupo de WhatsApp - com a justificativa de que "o mundo é da forma
que queremos ver". Além disso, ele disse que o sócio responsável pelo
post fica horas discutindo com a mulher sobre o que fazer com os posts. E
para colocar a cereja no bolo, insinuou que a aluna deveria pedir
desculpas ao autor do erro.
Ouvimos diariamente dos professores
desta rede de boxes o quanto é importante ter certificação para dar
aulas de CrossFit. O que é, no mínimo, responsável. Ouvimos lá dentro
críticas a blogueiras e instagrammers que, sem certificação adequada,
dão aulas e passam exercícios em suas redes sociais. Obviamente, algo
leviano e irresponsável.
Mas não seriam eles levianos e irresponsáveis quando tratam com
descaso o que é hoje a sua maior ferramenta de comunicação com os
alunos/clientes de suas unidades? Ora, se aquele é o canal para chegar
até o aluno e por isso deseja-se agradá-lo, homenageá-lo, mantê-lo
próximo, nada melhor do que contratar um profissional gabaritado para
tomar conta disto.
Se isto tivesse acontecido, provavelmente um
profissional de comunicação teria barrado a ideia do duplo sentido. Ou,
uma vez que a homenagem torta tenha sido "sem querer" ou inconsciente,
mas apontada pelo público, deveria haver uma retratação por parte da
marca. E não uma insinuação de que a aluna deveria se desculpar por ter
se sentido ofendida por uma ideia de girico.
O caso Quitandinha aconteceu faz pouquíssimo tempo e outras pessoas já escreveram brilhantemente sobre ele. Mas parece que ninguém aprendeu absolutamente nada.
quarta-feira, 9 de março de 2016
A prisão do vice-presidente do Facebook e a segurança dos dados
Você deve ter visto nos jornais ou nas redes sociais que o vice-presidente do Facebook na
América Latina foi preso em São Paulo no dia 1º de março de 2016. Diego
Jorge Dzodan foi liberado ontem após um habeas corpus. A prisão de
Diego foi pedida pela Justiça de Sergipe após a recusa do WhatsApp em
liberar à Polícia Federal conversas de supostos traficantes. Você deve
se lembrar, o aplicativo de mensagens foi comprado pelo Facebook em
2014.
Uma prisão deste tipo não é novidade. Em 2012, o presidente da Google já havia sido preso por não cumprir uma determinação da Justiça Eleitoral de retirar do Youtube vídeos considerados ofensivos.
Mas o mais importante em jogo nesta prisão é a questão da segurança de dados. Lá em 2014, quando o ex-técnico da CIA Edward Snowden trouxe à tona informações sobre a espionagem do governo americano, todos nós tivemos a certeza absoluta sobre a fragilidade a qual nossos dados estão submetidos.
Se em 2010 o governo dos EUA admitiu ter um programa para espionar as redes sociais, em 2013 ficou claro que nem a presidente Dilma, tampouco a Petrobras ficaram livres da invasão norte-americana de privacidade.
Edward Snowden está perambulando em algum lugar na Rússia amargando o que nós até poderíamos chamar de ato de coragem. Não sei se ele tinha noção do isolamento que sua atitude iria lhe trazer, se agiu por ímpeto ou indignação.
O fato é que o ostracismo de Snowden e a amargura de não poder retornar aos EUA parecem não terem surtido efeito na questão da segurança de dados.
Em fevereiro deste ano, o FBI recorreu à Justiça para que a Apple desse acesso ao iPhone de um atirador que matou 14 pessoas e feriu outras 22 em um tiroteio em San Bernardino, na Califórnia, no ano passado. A decisão foi tomada após a empresa fundada por Steve Jobs se negar a ajudar a Justiça.
Tim Cook, presidente executivo da Apple, disse que irá recorrer do processo e reiterou que "toda essa informação precisa ser protegida de hackers e criminosos que querem acessá-la, roubá-la e usá-la" e que "os clientes esperam que a Apple faça tudo em seu poder para proteger suas informações pessoais".
E o que, a princípio, era a solicitação para acessar dados de apenas um aparelho, se tornou uma exigência para outros 10 iPhones em diferentes estados norte-americanos. Em um dos casos, um juiz de Nova York decidiu no dia 29 de fevereiro que a polícia abusou de suas prerrogativas ao pedir ajuda à Apple para desbloquear o iPhone de um suposto traficante de drogas.
A decisão do dia 29 não envolve a ação dos jihadistas, mas o pedido é idêntico em relação ao acesso a dados codificados em um iPhone. Aqui no Brasil, em dezembro do ano passado, a Justiça determinou a suspensão do WhatsApp por 48h porque o aplicativo não atendeu a uma determinação para acessar informações de um usuário.
O que fica claro diante de todos estes exemplos é que agora a Justiça não é mais capaz de coletar provas sem ter que invadir deliberadamente seus dados. Se você é suspeito de algo, poderá ter a vida vasculhada - não só o sigilo bancário, mas as trocas de mensagens com quem quer que seja.
Com a prerrogativa de que você é suspeito de algo, poderá ter toda a vida exposta por uma ordem judicial. E não só isso! Uma vez que estes dados sejam desbloqueados, hackers e criminosos também podem vir a ter acesso a eles.
Você já parou para pensar o quanto compartilha em seu e-mail e redes sociais? Não apenas confidências - que são um direito seu de resguardar -, como dados pessoais como CPF, RG, documentos, números de cartões de crédito?
Tudo isto pode estar ainda mais vulnerável caso a Apple (e outras gigantes de tecnologia) ceda a esta pressão do governo norte-americano.
A segurança de dados deve ser analisada com mais atenção. Os mal-intencionados estão por toda parte. Para reforçar esta ideia, cito o caso do Snapchat. Um funcionário do setor responsável pela folha de pagamento do aplicativo entregou uma lista de colaboradores da empresa - com informações pessoais dos empregados - a um golpista que enviou um e-mail se passando pelo CEO Evan Spiegel.
Neste caso, foi criado um e-mail falso. Exemplo um tanto quanto ardiloso, mas aconteceu.
No dia 2 de março, foi encerrada a consulta pública lançada pelo Ministério da Justiça sobre a regulamentação do Marco Civil da Internet, o conjunto de regras para usuários e empresas que utilizam a web no Brasil. Foram recebidas quase 1,5 mil contribuições para que o decreto tenha mudanças. Ficou clara a necessidade de mudanças no decreto. No entanto, em uma busca sobre as questões urgentes, é difícil encontrar algo que trate da segurança de dados.
As empresas estão mais interessadas em reclamar do poder da agência reguladora Anatel e discutir a entrega de velocidades distintas aos usuários de acordo com aquilo que eles estiverem acessando na rede.
Entendemos que na nossa sociedade em vigor, as questões econômicas - para a empresa e para o usuário - sejam urgentes. No entanto, não podemos deixar de lado a atenção para os dados. O que está em jogo são as informações do usuário que deveria ter direito à privacidade do conteúdo de seus aparelhos.
Uma vez que o Marco Civil dê à Justiça brasileira o direito de bloquear aplicativos ou prender executivos a fim de obter uma informação, nós usuários estaremos em risco. Parece óbvio que Justiça e a Polícia Federal tenham outros métodos de investigação para obter as informações que necessitam, sem que invadam a privacidade do usuário.
Uma prisão deste tipo não é novidade. Em 2012, o presidente da Google já havia sido preso por não cumprir uma determinação da Justiça Eleitoral de retirar do Youtube vídeos considerados ofensivos.
Mas o mais importante em jogo nesta prisão é a questão da segurança de dados. Lá em 2014, quando o ex-técnico da CIA Edward Snowden trouxe à tona informações sobre a espionagem do governo americano, todos nós tivemos a certeza absoluta sobre a fragilidade a qual nossos dados estão submetidos.
Se em 2010 o governo dos EUA admitiu ter um programa para espionar as redes sociais, em 2013 ficou claro que nem a presidente Dilma, tampouco a Petrobras ficaram livres da invasão norte-americana de privacidade.
Edward Snowden está perambulando em algum lugar na Rússia amargando o que nós até poderíamos chamar de ato de coragem. Não sei se ele tinha noção do isolamento que sua atitude iria lhe trazer, se agiu por ímpeto ou indignação.
O fato é que o ostracismo de Snowden e a amargura de não poder retornar aos EUA parecem não terem surtido efeito na questão da segurança de dados.
Em fevereiro deste ano, o FBI recorreu à Justiça para que a Apple desse acesso ao iPhone de um atirador que matou 14 pessoas e feriu outras 22 em um tiroteio em San Bernardino, na Califórnia, no ano passado. A decisão foi tomada após a empresa fundada por Steve Jobs se negar a ajudar a Justiça.
Tim Cook, presidente executivo da Apple, disse que irá recorrer do processo e reiterou que "toda essa informação precisa ser protegida de hackers e criminosos que querem acessá-la, roubá-la e usá-la" e que "os clientes esperam que a Apple faça tudo em seu poder para proteger suas informações pessoais".
E o que, a princípio, era a solicitação para acessar dados de apenas um aparelho, se tornou uma exigência para outros 10 iPhones em diferentes estados norte-americanos. Em um dos casos, um juiz de Nova York decidiu no dia 29 de fevereiro que a polícia abusou de suas prerrogativas ao pedir ajuda à Apple para desbloquear o iPhone de um suposto traficante de drogas.
A decisão do dia 29 não envolve a ação dos jihadistas, mas o pedido é idêntico em relação ao acesso a dados codificados em um iPhone. Aqui no Brasil, em dezembro do ano passado, a Justiça determinou a suspensão do WhatsApp por 48h porque o aplicativo não atendeu a uma determinação para acessar informações de um usuário.
O que fica claro diante de todos estes exemplos é que agora a Justiça não é mais capaz de coletar provas sem ter que invadir deliberadamente seus dados. Se você é suspeito de algo, poderá ter a vida vasculhada - não só o sigilo bancário, mas as trocas de mensagens com quem quer que seja.
Com a prerrogativa de que você é suspeito de algo, poderá ter toda a vida exposta por uma ordem judicial. E não só isso! Uma vez que estes dados sejam desbloqueados, hackers e criminosos também podem vir a ter acesso a eles.
Você já parou para pensar o quanto compartilha em seu e-mail e redes sociais? Não apenas confidências - que são um direito seu de resguardar -, como dados pessoais como CPF, RG, documentos, números de cartões de crédito?
Tudo isto pode estar ainda mais vulnerável caso a Apple (e outras gigantes de tecnologia) ceda a esta pressão do governo norte-americano.
A segurança de dados deve ser analisada com mais atenção. Os mal-intencionados estão por toda parte. Para reforçar esta ideia, cito o caso do Snapchat. Um funcionário do setor responsável pela folha de pagamento do aplicativo entregou uma lista de colaboradores da empresa - com informações pessoais dos empregados - a um golpista que enviou um e-mail se passando pelo CEO Evan Spiegel.
Neste caso, foi criado um e-mail falso. Exemplo um tanto quanto ardiloso, mas aconteceu.
Em junho de 2014, entrevistei o jornalista Glenn Greenwald, responsável pela veiculação das informações capturadas por Snowden. Segundo Greenwald, a Agência Nacional de Segurança Americana (NSA) intercepta produtos como roteadores comutadores de rede quando eles estão em trânsito para os consumidores.Mas vai além disto, todo profissional ou empresa que precise resguardar dados de clientes ou fontes deveria utilizar criptografia. A questão é como transforma-la em algo acessível financeiramente a todos.
A agência abre pacotes, implanta dispositivos de vigilância nos aparelhos, e os devolve lacrados para os usuários sem que eles saibam disso.
"Eles abrem o produto e colocam um programa para todos as informações, todos os dados irem para a NSA, fecham o pacote e mandam para a pessoa que comprou. E esses produtos são usados para dar serviços de internet para muitas pessoas", me disse Greenwald na ocasião.
Ele ressaltou a necessidade de os governos - inclusive o brasileiro - se precaverem em relação à privacidade investindo em tecnologia de criptografia.
No dia 2 de março, foi encerrada a consulta pública lançada pelo Ministério da Justiça sobre a regulamentação do Marco Civil da Internet, o conjunto de regras para usuários e empresas que utilizam a web no Brasil. Foram recebidas quase 1,5 mil contribuições para que o decreto tenha mudanças. Ficou clara a necessidade de mudanças no decreto. No entanto, em uma busca sobre as questões urgentes, é difícil encontrar algo que trate da segurança de dados.
As empresas estão mais interessadas em reclamar do poder da agência reguladora Anatel e discutir a entrega de velocidades distintas aos usuários de acordo com aquilo que eles estiverem acessando na rede.
Entendemos que na nossa sociedade em vigor, as questões econômicas - para a empresa e para o usuário - sejam urgentes. No entanto, não podemos deixar de lado a atenção para os dados. O que está em jogo são as informações do usuário que deveria ter direito à privacidade do conteúdo de seus aparelhos.
Uma vez que o Marco Civil dê à Justiça brasileira o direito de bloquear aplicativos ou prender executivos a fim de obter uma informação, nós usuários estaremos em risco. Parece óbvio que Justiça e a Polícia Federal tenham outros métodos de investigação para obter as informações que necessitam, sem que invadam a privacidade do usuário.
Marcadores:
Apple,
California,
CIA,
Facebook; Polícia Federal; Edward Snowden; Youtube; NSA,
FBI; WhatsApp,
Glenn Greenwald,
hackers,
iPhone,
Marco Civil,
Petrobras,
segurança de dados,
Snapchat,
Tim Cook
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Invisibilidade
http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/01/policia-nao-descarta-homofobia-em-morte-de-jovem-em-curitiba-no-pr.html
318 gays foram mortos em 2015 em todo o Brasil. O link acima é mais um suposto caso de 2016.
O relatório anual sobre o assassinato de homossexuais no ano passado foi divulgado ontem pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) - mais antiga entidade do gênero do Brasil.
Desse total de vítimas, o GGB diz que 52% são gays, 37% travestis, 16% lésbicas, 10% bissexuais.
A informação chegou até mim por e-mail, através da Parada do Orgulho LGBT de SP. Numa simples busca no Google, é possível ver que todos os levantamentos são feitos pela GGB. Nenhum órgão federal - nem mesmo a Secretaria de Direitos Humanos - se interessou em fazer este levantamento por conta própria ou legitimar aquele feito pelo GGB. No site da secretaria não há nenhuma menção a estes dados.
Embora reúna estes dados há anos, o GGB, por ser registrado como uma sociedade civil sem fins lucrativos, não é considerado uma fonte oficial.
Sem que um órgão público legitime este número, ele é inexistente, ou - em português claro - não vira notícia.
E este ponto não é questão de bandeira. Cada um tem a sua, e se não tiver nenhuma, que ao menos não compactue com este tipo de violência. Estamos falando de crimes de ódio.
"Entre os casos coletados está o do bacharel Helmiton Figueiredo, 30 anos, de Cabo de Santo Agostinho, PE, morto com 60 facadas; Bruno C. Xavier, esquartejado e cimentado em seu apartamento em Diadema, SP e Pablo Garcez, pedreiro de 35 anos, de Manaus, teve seu tronco e braços decepados", diz a nota.
E aí?
318 gays foram mortos em 2015 em todo o Brasil. O link acima é mais um suposto caso de 2016.
O relatório anual sobre o assassinato de homossexuais no ano passado foi divulgado ontem pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) - mais antiga entidade do gênero do Brasil.
Desse total de vítimas, o GGB diz que 52% são gays, 37% travestis, 16% lésbicas, 10% bissexuais.
A informação chegou até mim por e-mail, através da Parada do Orgulho LGBT de SP. Numa simples busca no Google, é possível ver que todos os levantamentos são feitos pela GGB. Nenhum órgão federal - nem mesmo a Secretaria de Direitos Humanos - se interessou em fazer este levantamento por conta própria ou legitimar aquele feito pelo GGB. No site da secretaria não há nenhuma menção a estes dados.
Embora reúna estes dados há anos, o GGB, por ser registrado como uma sociedade civil sem fins lucrativos, não é considerado uma fonte oficial.
Sem que um órgão público legitime este número, ele é inexistente, ou - em português claro - não vira notícia.
E este ponto não é questão de bandeira. Cada um tem a sua, e se não tiver nenhuma, que ao menos não compactue com este tipo de violência. Estamos falando de crimes de ódio.
"Entre os casos coletados está o do bacharel Helmiton Figueiredo, 30 anos, de Cabo de Santo Agostinho, PE, morto com 60 facadas; Bruno C. Xavier, esquartejado e cimentado em seu apartamento em Diadema, SP e Pablo Garcez, pedreiro de 35 anos, de Manaus, teve seu tronco e braços decepados", diz a nota.
E aí?
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Carta ao pai
Carta ao pai
Pai, sei que a gente se abandonou.
E às vezes parece que este abandono é mais meu do que seu, considerando suas condições físicas de saúde.
Não é algo voluntário.
E sei que talvez neste momento, você deva me achar uma filha relapsa e mal agradecida.
Mas há aqui um bloqueio que não me deixa trazer a nossa relação como era. Você se tornou outro, eu me tornei outra.
E a realidade é que não sei lidar que eu tinha um pai e agora ele é outro.
Nosso afeto não mudou, mas se congelou. Não sabemos mais demonstrá-lo como antigamente.
Em algum lugar do meu inconsciente devo achar que vc me traiu e me abandonou, justificando assim o meu abandono.
Outro dia, pai, visitei um Centro Espírita. Sim, um como aquele que você me levava como era criança. E que na adolescência abandonei porque creditava a ele as suas perturbações mentais. Lembra que nas suas crises de euforia você sempre dizia que estava incorporando meu avô?
O psiquiatra disse que eram alucinações e que é algo muito comum em pacientes bipolares a imaginação de ver/ouvir/incorporar espíritos.
Acreditei sem questioná-lo. A tolice da sociedade nos faz crer sem pestanejar no que dizem os médicos. Hoje, com um pouco mais de desconfiança, já não sei se ele tinha razão. Leio muitas coisas que me fazem acreditar que ele estava equivocado ao decretar sua ciência como verdade universal.
Fui ao Centro porque estava sofrendo. Embora eu tome minhas decisões sem pedir opinião a ninguém, nem sempre acredito piamente nelas. Estava em um dia desses em que a angústia toma conta e você não tem certeza de nada. Nestes momentos de fragilidade, parece que nada bem ninguém pode nos dizer algo que sirva para que acalmemos.
Pois bem. Na palestra, a moça disse algo que me marcou. Que se estamos todos neste mesmo plano, é sinal de que temos as mesmas lições para aprender. Portanto, é tolice achar que um humano é mais evoluído que o outro. Se fôssemos, estaríamos em planos astrais superiores. E que por isso, deveríamos nos perdoar.
Perdão é uma palavra a qual nunca me agradou, porque vem carregada de cristianismo e opressão. O perdão reforça que existe o pecado. E o pecado é a maior forma de opressão que a sociedade vive. A idéia de pecado gera tanta intolerância que dói proferir essas duas palavrinhas tão atreladas.
Mas como bom estudioso do espiritismo, pai, você deve ter escutado uma palavra mais bonita e mais condizente com o que estou tentando dizer: compaixão.
Compaixão reflete este sentimento que devemos ter com o outro e com nós mesmos. E é o que eu gostaria de demonstrar ter por você. Mas a minha incapacidade de evoluir - neste sentido - fica muito clara quando tento resolver isto.
Me sinto inútil e incapaz por não conseguir resolver isto. Sabe. Hoje li uma coisa. Uma coisa que mexeu muito. E foi por isso que resolvi te escrever.
Li que uma criança de 6 anos estava prestes a perder seu cachorro de estimação - que já tinha o dobro de sua idade. O veterinário não pôde fazer nada pelo cão e teve de sacrificá-lo. Como você fez com a Veluda - nossa cachorra - e depois se sentiu tão mal, lembra?
Inconformado com o sofrimento daquela família ali velando o cão, o veterinário indagou porque estes animais vivem tão pouco. Ao passo que a criança - conformada com a situação - disse que os cães já nascem sabendo tudo aquilo que nós humanos viemos aqui na missão de aprender. Amam, têm compaixão, ajudam a quem amam.
E nós, na nossa imperfeição, ainda estamos engatinhando em tudo isso. Por mais piegas que possa parecer, a mensagem do cachorrinho me fez te escrever. Porque sei o quanto temos essa dificuldade. Já fiz inúmeras sessões de análise, com profissionais distintos, para me livrar da culpa cristã. Talvez neste movimento de melhorar, tenha me afastado ainda mais. Mas acredito que além de me livrar da culpa, precisava acertar estes pontos.
De certa forma, retornar ao Centro é retornar a você. Sabe, vi um casal com uma filha que regulava a minha idade. E imaginei que se todos os últimos acontecimentos - a sua doença, a separação da minha mãe, o retorno ao primeiro casamento - não tivessem sucedido, talvez poderíamos estar nós três ali, protagonizando aquela cena.
Mas não foi. Mudaram-se todos os propósitos, as missões, e desde então me sinto perdida, sem saber que parte do mundo habitar. E talvez seja este o meu carma, a minha missão. Sinto que o tempo está passando cada vez mais rápido e a cada dia se encurta a possibilidade de virar o jogo e acertarmos os ponteiros. Só gostaria de dizer que mesmo com as minhas dificuldades, minha compaixão não se foi por completo. E que mesmo ao dizer para mim todos os dias que nós dois temos responsabilidade por isso, sei que estou com condições mais adequadas de resolver isto do que você. Espero dar conta disso e resolver em breve.
Te amo.
Pai, sei que a gente se abandonou.
E às vezes parece que este abandono é mais meu do que seu, considerando suas condições físicas de saúde.
Não é algo voluntário.
E sei que talvez neste momento, você deva me achar uma filha relapsa e mal agradecida.
Mas há aqui um bloqueio que não me deixa trazer a nossa relação como era. Você se tornou outro, eu me tornei outra.
E a realidade é que não sei lidar que eu tinha um pai e agora ele é outro.
Nosso afeto não mudou, mas se congelou. Não sabemos mais demonstrá-lo como antigamente.
Em algum lugar do meu inconsciente devo achar que vc me traiu e me abandonou, justificando assim o meu abandono.
Outro dia, pai, visitei um Centro Espírita. Sim, um como aquele que você me levava como era criança. E que na adolescência abandonei porque creditava a ele as suas perturbações mentais. Lembra que nas suas crises de euforia você sempre dizia que estava incorporando meu avô?
O psiquiatra disse que eram alucinações e que é algo muito comum em pacientes bipolares a imaginação de ver/ouvir/incorporar espíritos.
Acreditei sem questioná-lo. A tolice da sociedade nos faz crer sem pestanejar no que dizem os médicos. Hoje, com um pouco mais de desconfiança, já não sei se ele tinha razão. Leio muitas coisas que me fazem acreditar que ele estava equivocado ao decretar sua ciência como verdade universal.
Fui ao Centro porque estava sofrendo. Embora eu tome minhas decisões sem pedir opinião a ninguém, nem sempre acredito piamente nelas. Estava em um dia desses em que a angústia toma conta e você não tem certeza de nada. Nestes momentos de fragilidade, parece que nada bem ninguém pode nos dizer algo que sirva para que acalmemos.
Pois bem. Na palestra, a moça disse algo que me marcou. Que se estamos todos neste mesmo plano, é sinal de que temos as mesmas lições para aprender. Portanto, é tolice achar que um humano é mais evoluído que o outro. Se fôssemos, estaríamos em planos astrais superiores. E que por isso, deveríamos nos perdoar.
Perdão é uma palavra a qual nunca me agradou, porque vem carregada de cristianismo e opressão. O perdão reforça que existe o pecado. E o pecado é a maior forma de opressão que a sociedade vive. A idéia de pecado gera tanta intolerância que dói proferir essas duas palavrinhas tão atreladas.
Mas como bom estudioso do espiritismo, pai, você deve ter escutado uma palavra mais bonita e mais condizente com o que estou tentando dizer: compaixão.
Compaixão reflete este sentimento que devemos ter com o outro e com nós mesmos. E é o que eu gostaria de demonstrar ter por você. Mas a minha incapacidade de evoluir - neste sentido - fica muito clara quando tento resolver isto.
Me sinto inútil e incapaz por não conseguir resolver isto. Sabe. Hoje li uma coisa. Uma coisa que mexeu muito. E foi por isso que resolvi te escrever.
Li que uma criança de 6 anos estava prestes a perder seu cachorro de estimação - que já tinha o dobro de sua idade. O veterinário não pôde fazer nada pelo cão e teve de sacrificá-lo. Como você fez com a Veluda - nossa cachorra - e depois se sentiu tão mal, lembra?
Inconformado com o sofrimento daquela família ali velando o cão, o veterinário indagou porque estes animais vivem tão pouco. Ao passo que a criança - conformada com a situação - disse que os cães já nascem sabendo tudo aquilo que nós humanos viemos aqui na missão de aprender. Amam, têm compaixão, ajudam a quem amam.
E nós, na nossa imperfeição, ainda estamos engatinhando em tudo isso. Por mais piegas que possa parecer, a mensagem do cachorrinho me fez te escrever. Porque sei o quanto temos essa dificuldade. Já fiz inúmeras sessões de análise, com profissionais distintos, para me livrar da culpa cristã. Talvez neste movimento de melhorar, tenha me afastado ainda mais. Mas acredito que além de me livrar da culpa, precisava acertar estes pontos.
De certa forma, retornar ao Centro é retornar a você. Sabe, vi um casal com uma filha que regulava a minha idade. E imaginei que se todos os últimos acontecimentos - a sua doença, a separação da minha mãe, o retorno ao primeiro casamento - não tivessem sucedido, talvez poderíamos estar nós três ali, protagonizando aquela cena.
Mas não foi. Mudaram-se todos os propósitos, as missões, e desde então me sinto perdida, sem saber que parte do mundo habitar. E talvez seja este o meu carma, a minha missão. Sinto que o tempo está passando cada vez mais rápido e a cada dia se encurta a possibilidade de virar o jogo e acertarmos os ponteiros. Só gostaria de dizer que mesmo com as minhas dificuldades, minha compaixão não se foi por completo. E que mesmo ao dizer para mim todos os dias que nós dois temos responsabilidade por isso, sei que estou com condições mais adequadas de resolver isto do que você. Espero dar conta disso e resolver em breve.
Te amo.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Minha maior alegria
Décimo dia de férias e a minha maior alegria é: não saber quem é Jéssica.
Será um novo meme? Um viral? Um vídeo no Youtube que bombou?
Sei lá.
Nem quero saber.
O bom das férias é ficar alheio a toda bobajada proferida por aí.
O silêncio é a melhor companhia para todas as horas.
Será um novo meme? Um viral? Um vídeo no Youtube que bombou?
Sei lá.
Nem quero saber.
O bom das férias é ficar alheio a toda bobajada proferida por aí.
O silêncio é a melhor companhia para todas as horas.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Sol de maio
Um reflexão tardia pós fim de semana: não há nada mais agradável do que o sol de maio.
Não no Rio de Janeiro. O sol de maio ainda é quente, tem aquele amarelo-outono - mais bonito que todos os outros tons de amarelo.
E o melhor de tudo: vem acompanhado de um frescor, uma temperatura mais amena, que não frita os miolos, porém também não deixa de ser quente.
Taí uma coisa na vida com a qual eu não tinha feito justiça: valorizar o sol de maio.
Fica aqui o registro.
Não no Rio de Janeiro. O sol de maio ainda é quente, tem aquele amarelo-outono - mais bonito que todos os outros tons de amarelo.
E o melhor de tudo: vem acompanhado de um frescor, uma temperatura mais amena, que não frita os miolos, porém também não deixa de ser quente.
Taí uma coisa na vida com a qual eu não tinha feito justiça: valorizar o sol de maio.
Fica aqui o registro.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Código de conduta do beijo
Há um código de conduta do beijo durante um cumprimento. É apenas uma questão geográfica.
Assim que cheguei em São Paulo, meu segundo beijo ficava no ar- ou no vácuo mesmo.
Treinei todo dia dando um beijo na Moniquinha e no Rafa ao chegar em casa, pronto, funcionou, não pago mais mico com os paulistas.
Exceto quando eu volto do Rio - no primeiro e, no máximo, no segundo dia - porque a cabeça ainda está no modus operandi do cumprimento carioca.
No sul, por exemplo, o povo não economiza: dão logo três que é pra mostrar que não falta amor - disse Paula Bianca Bianchi - repórtera gaúcha querida.
Mas o fato é que o código de conduta do beijo é bem particular.
Vejam vocês: outro dia encontrei em São Paulo uma conhecida carioca na casa de outra amiga também carioca e pegamos o metrô juntas até parte do caminho de volta pra casa. Pois na hora de despedir, foi quase uma questão de honra. Rimos e brincamos que não poderíamos trair as raízes, não entre nós. E demos o segundo beijinho pra constar que sim, nos mudamos, mas a nossa cultura está preservada.
Achei que pudesse ser um tipo de cumplicidade estabelecida entre nós naquele momento por um sentimento de saudosismo ou de querer preservar as raízes mesmo.
Mas só me dei conta desse código de conduta quando nas duas vezes em que peguei carona com uma colega de trabalho também carioca, o mesmo se deu.
Estabelecemos naturalmente que sim, quando nos despedíssemos entre nós, seria com os dois beijinhos.
E assim descobri o código de conduta interestadual do beijo.
Mautner é carioca, mas deveria ser gaúcho. Ou sei lá, de outra cultura que desconheço.
https://m.youtube.com/watch?v=6x1Y-03LOyg
Assim que cheguei em São Paulo, meu segundo beijo ficava no ar- ou no vácuo mesmo.
Treinei todo dia dando um beijo na Moniquinha e no Rafa ao chegar em casa, pronto, funcionou, não pago mais mico com os paulistas.
Exceto quando eu volto do Rio - no primeiro e, no máximo, no segundo dia - porque a cabeça ainda está no modus operandi do cumprimento carioca.
No sul, por exemplo, o povo não economiza: dão logo três que é pra mostrar que não falta amor - disse Paula Bianca Bianchi - repórtera gaúcha querida.
Mas o fato é que o código de conduta do beijo é bem particular.
Vejam vocês: outro dia encontrei em São Paulo uma conhecida carioca na casa de outra amiga também carioca e pegamos o metrô juntas até parte do caminho de volta pra casa. Pois na hora de despedir, foi quase uma questão de honra. Rimos e brincamos que não poderíamos trair as raízes, não entre nós. E demos o segundo beijinho pra constar que sim, nos mudamos, mas a nossa cultura está preservada.
Achei que pudesse ser um tipo de cumplicidade estabelecida entre nós naquele momento por um sentimento de saudosismo ou de querer preservar as raízes mesmo.
Mas só me dei conta desse código de conduta quando nas duas vezes em que peguei carona com uma colega de trabalho também carioca, o mesmo se deu.
Estabelecemos naturalmente que sim, quando nos despedíssemos entre nós, seria com os dois beijinhos.
E assim descobri o código de conduta interestadual do beijo.
Mautner é carioca, mas deveria ser gaúcho. Ou sei lá, de outra cultura que desconheço.
https://m.youtube.com/watch?v=6x1Y-03LOyg
Assinar:
Postagens (Atom)