Acredito no fenômeno da re(paixão). Ele funciona mais ou menos assim: você ouve um disco uma vez, se apaixona por ele, ouve, ouve, ouve até furar. Anos depois você o reencontra. E se reapaixona. Pode ser assim com as pessoas. Ou com os livros. Ou até com uma outra faceta do objeto em questão. Há meses andava em minha cabeceira seu Drummond com sua "Poesia Errante". De dias em dias eu abria, lia um de seus poemas e sublinhava algo que me soasse bom naquele momento específico. Embaixo dele estava "Dossiê Drummond", do Geneton Moraes Neto, uma reportagem biográfica. Desde dezembro ele estava ali acumulando poeira, até que resolvi pegar. Eis que ocorreu o fenômeno da (re)paixão.
E cá estou vendo seu Drummond por outro ângulo. O daquele que responde.
Geneton pergunta: Qual é o grande medo de Carlos Drummond de Andrade aos oitenta e cinco anos?
Ele responde: Nenhum. Sinceramente, sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma. Não espero decepção nenhuma. O medo que tenho é de levar uma queda, me machucar, quebrar a cabeça, coisas assim, porque, na idade em que estou, a primeira coisa que acontece numa queda é a fratura do fêmur. Isso eu receio.
Geneton coloca no meio da resposta (como faz em quase todas as perguntas) um trecho de Drummond:
(...)
o medo dos grandes sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amareladas e medrosas.
("Congresso internacional do medo" - trecho)
E ele continua:
Mas medo, propriamente, não tenho, porque não tenho religião. Não tenho partido político. Vivo em paz com meu critério moral e minha consciência.
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
domingo, 11 de março de 2012
Da série: respostas a Drummond.
Embriaguez - literal e em doses cavalares - de pretensão.
C.D.A. em Poesia errante (pag 30).
O Charadista
Ama as palavras cruzadas
e também os logogrifos,
pois a poesia, bem sabes,
é emoção filtrada em signos
de grifos e de hipogrifos,
e te divertes buscando
a chave obscura do verbo,
a chave esconsa do amor,
a chave enigma - do ser.
Resposta
O Detetive
Ama enigmas
mistérios e véus.
que graça teria sua vida
sem os crimes passionais,
os encontros casuais,
os casos extraconjugais,
a paixão fugaz,
a conquista sagaz,
e a falta que faz
- aquela produzida
pelo simples existir?
C.D.A. em Poesia errante (pag 54)
Livro
Boitempo, ou seja, aquelo vago boi
imóvel na planura do passado,
a ruminar o verde-azul-dourado
silêncio do que é de quanto foi.
Resposta
Livre
Torna-se dono
do que sente
sem controle, sem rédea:
o poder é doente.
C.D.A. em Poesia errante (pag 55)
Merci, merci, merci
Merci, merci, merci
Estou empapelado!
Deixo, feliz, aqui,
o meu muito-obrigado
a ti.
Resposta
De rien, de rien, de rien
Rien de rien,
De rien.
Foi sincero.
A gratidão
é só questão de educação.
C.D.A. em Poesia errante (pag 57)
O meu papel
O meu papel, agora bem timbrado,
dá-me status muitíssimo bacana.
De cada folha salta um obrigado
e de cada envelope, um alto hosana.
Resposta
O seu papel
O seu papel sem nenhum registro
sem nenhum valor aparente
é o seu troféu - insisto -
de quem vive, de quem sente.
C.D.A. em Poesia errante (pags 58, 59, 60 e 61- na série O trabalho em verso)
Duas respostas
Mascate
Busca a cada viagem
vender aquilo que carrega
numa engrenagem
a qual nunca se entrega.
Amante
À espera de um espaço de tempo
se desilude a cada contratempo
daquele que por um instante
acreditou ser seu.
C.D.A. em Poesia errante (pag 63)
Ramo de lucidez
Ramo de lucidez
e ramo de carinho:
com esses dois verdores,
ornamentar o ninho
onde a forma nascente
vai tornar-se destino.
Resposta
Um ramo de lucidez num pé de loucura
Árvore de loucura
galhos de espinhos
com esses dois companheiros
deitar na sofrida
forma crescida
que se chama vida.
C.D.A. em Poesia errante (pag 69)
Amanhecer
Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.
Resposta
Anoitecer
Anoitecer: o mais antigo
sinal de descanso na Terra.
O momento em que podemos dormir.
Apagar por instantes os sinais
de vida sobre a Terra.
O momento em que vamos para os sonhos
viver apenas aquilo que desejamos.
Os melhores e os piores desejos.
C.D.A. em Poesia errante (pag 30).
O Charadista
Ama as palavras cruzadas
e também os logogrifos,
pois a poesia, bem sabes,
é emoção filtrada em signos
de grifos e de hipogrifos,
e te divertes buscando
a chave obscura do verbo,
a chave esconsa do amor,
a chave enigma - do ser.
Resposta
O Detetive
Ama enigmas
mistérios e véus.
que graça teria sua vida
sem os crimes passionais,
os encontros casuais,
os casos extraconjugais,
a paixão fugaz,
a conquista sagaz,
e a falta que faz
- aquela produzida
pelo simples existir?
C.D.A. em Poesia errante (pag 54)
Livro
Boitempo, ou seja, aquelo vago boi
imóvel na planura do passado,
a ruminar o verde-azul-dourado
silêncio do que é de quanto foi.
Resposta
Livre
Torna-se dono
do que sente
sem controle, sem rédea:
o poder é doente.
C.D.A. em Poesia errante (pag 55)
Merci, merci, merci
Merci, merci, merci
Estou empapelado!
Deixo, feliz, aqui,
o meu muito-obrigado
a ti.
Resposta
De rien, de rien, de rien
Rien de rien,
De rien.
Foi sincero.
A gratidão
é só questão de educação.
C.D.A. em Poesia errante (pag 57)
O meu papel
O meu papel, agora bem timbrado,
dá-me status muitíssimo bacana.
De cada folha salta um obrigado
e de cada envelope, um alto hosana.
Resposta
O seu papel
O seu papel sem nenhum registro
sem nenhum valor aparente
é o seu troféu - insisto -
de quem vive, de quem sente.
C.D.A. em Poesia errante (pags 58, 59, 60 e 61- na série O trabalho em verso)
Duas respostas
Mascate
Busca a cada viagem
vender aquilo que carrega
numa engrenagem
a qual nunca se entrega.
Amante
À espera de um espaço de tempo
se desilude a cada contratempo
daquele que por um instante
acreditou ser seu.
C.D.A. em Poesia errante (pag 63)
Ramo de lucidez
Ramo de lucidez
e ramo de carinho:
com esses dois verdores,
ornamentar o ninho
onde a forma nascente
vai tornar-se destino.
Resposta
Um ramo de lucidez num pé de loucura
Árvore de loucura
galhos de espinhos
com esses dois companheiros
deitar na sofrida
forma crescida
que se chama vida.
C.D.A. em Poesia errante (pag 69)
Amanhecer
Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.
Resposta
Anoitecer
Anoitecer: o mais antigo
sinal de descanso na Terra.
O momento em que podemos dormir.
Apagar por instantes os sinais
de vida sobre a Terra.
O momento em que vamos para os sonhos
viver apenas aquilo que desejamos.
Os melhores e os piores desejos.
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