Olha, pode até ser leviano de minha parte querer discorrer sobre a máxima de Criolo com tão pouco tempo de vivência in loco. Mas se de fato não existe amor em SP - ainda vou descobrir - posso dizer que há muita gentileza na rua.
Num mesmo dia em que quis experimentar fazer o trajeto de casa até o trabalho de ônibus - e não de metrô como havia fazendo - encontrei delicadeza na ida e na volta.
Para ir, me preocupei se tinha o número certo da condução e comecei a perguntar no ponto. Ao que um rapaz simpático me disse que pegaria aquele ônibus, que eu não me preocupasse porque em cinco minutos ele passaria ali. Perguntou para onde eu iria e me disse quanto tempo eu levaria para chegar até lá. Uma senhora - de cabelos brancos assumidos e nem por isso sem perder a aparência jovial - cochichou no meu ouvido que o rapaz era uma graça e -vejam só - combinava comigo! Ri um riso amarelo e pensei cá com os meus botões na pataquada que acabara de ouvir, mas achei fofa a tentativa de cupido da jovem senhora.
Já na volta, aguardava o mesmo ônibus em um ponto sem muita iluminação. Eis que um casal de rapazes passa por mim e um deles me diz que não era bom eu ficar sozinha ali e que, pronto, tinham decidido, iriam comigo até o ponto mais iluminado da rua e depois voltariam para a lanchonete onde desejavam comer. E assim o fizeram.
Uma outra coisa me chamou a atenção. As pessoas aqui se desculpam por gestos que - é, realmente, a gente deveria se desculpar por eles - não é normal fazê-lo. Ontem mesmo uma moça que mora aqui no prédio se desculpou por não ter segurado a porta do elevador para mim porque não tinha me visto chegar.
À parte o fato de que fui gentilmente recebida por dois amigos queridos em sua casa desde que cheguei à terra da garoa e, desde então busco um lar, só encontro mais razões para achar que pode sim existir amor em SP.
sábado, 20 de setembro de 2014
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Trabalhando a poesia parte 1
Não ignore minha saudade
Porque nela não tem dor
Só calor
É quando deixo esse cartão-postal
Que percebo a vida-cor
Sofrimento a gente adia,
Sentimento não tem dia
E não existe geografia
Onde a saudade não está
Não ignore minha saudade
Porque vou morar no cinza
E sem a pedra e sem a tinta
Eu vou aprender a amar
Porque nela não tem dor
Só calor
É quando deixo esse cartão-postal
Que percebo a vida-cor
Sofrimento a gente adia,
Sentimento não tem dia
E não existe geografia
Onde a saudade não está
Não ignore minha saudade
Porque vou morar no cinza
E sem a pedra e sem a tinta
Eu vou aprender a amar
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Não se vive sem trilha sonora
Faz um tempo. Não me lembro quanto. Só sei que foi num desses dias em que se chega sorridente e cantarolando - a canção eu poderia chutar que era do Chico ou de algum outro romântico, não sei precisar qual - e respondi ao interlocutor que me indagava o porquê da cantoria àquela hora do dia.
"Não se vive uma paixão sem trilha sonora", eu disse entre o refrão, abrir a porta do elevador e subir terminando os outros versos da canção. Foi uma dessas respostas categóricas que gosto de dar, sempre com um sorriso finalizando a frase. Quase como se tivesse terminado a fala com um "obrigada pela pergunta".
Ela me cabia naquele momento perfeitamente. Mas a verdade, acordei com mais certeza hoje, é que não se vive sem trilha sonora e ponto. Para o amor - e também ao desamor - há sempre uma música pro coração.
Tem as de angústia, as de esperança, as de alegria gratuita, as solenes, as dançantes e as que fazem chorar tamanha a força com que nos tocam. Há sempre a chance de encontrar uma canção que diga exatamente o que você está sentindo naquele exato momento.
Também existem aquelas que você sempre ouviu com determinado cantor e nunca deu a menor bola. Até que vem alguém, tipo Bethânia em Pra Rua Me Levar, e te faz mudar completamente de ideia sobre aquela canção.
Sempre que possível repito para alguém que "a formiga só trabalha porque não sabe cantar". Uma espécie de protesto ao meu desafino, baseada em Raul. Mas certa vez me responderam: "ouvir também é uma arte". Então sigo ouvindo.
domingo, 24 de agosto de 2014
É que Marte estava em Libra...
"Porque eu sou tímido e teve um negócio de você perguntar o meu signo, quando não havia signo nenhum. Escorpião, sagitário, não sei que lá. Ficou um papo de otário, um papo. Ia sendo bom...", cantava Gal lindamente no auge de sua juventude.
Papo de otário ou não, os astros são sim "Da Maior Importância", tal qual o nome da música, de pertinência sem igual. E é sobre eles que discorro agora. Houve um momento em que mercúrio retrógrado era o novo preto. E havia razão de ser. Só neste ano ele já retrocedeu duas vezes e - segurem as pontas aí que - tem mais um movimento desses em outubro.
O planeta, que rege a comunicação, saiu das páginas de Susan Miller para as de O Globo e toda a sorte de revistas que traziam previsões astrológicas para o tal 2014 (no ano passado ele também já bombava nas colunas dos jornais).
Mas o fato é que este ano um tal de Marte roubou a cena. Entre muitas conversas entre amigos e amigas, houve um consenso geral de que este ano acabou de começar. Há quem diga que ele só começou em agosto. Eu prefiro achar que foi no fim de julho, quando Marte deixou libra - depois de oito meses - e entrou em Escorpião. Ali começava o então aguardado 2014. Natural que as coisas só aconteçam em agosto, já que elas demoram a pegar no tranco.
Esse negócio de ser otário ainda vai nos levar além (tudo bem que Leminski disse que era de ser exatamente quem a gente é, mas pego minha licença, nada poética mais para otária, e escrevo assim).
Entrevistava uma cantora que me falava de seu disco novo e de como estava difícil dele sair, com vários perrengues no caminho. Não me contive e lancei. "Relaxa, é que Marte estava em libra...Ele já entrou em escorpião, vai ficar tudo bem". E dali o papo descambou para astrologia até que retornássemos ao assunto importante: música.
Para ela tudo fez sentido. Para mim era apenas uma repetição de um mantra de que ficaria tudo bem, eu sabia, Marte tinha deixado libra e não era possível que nada ainda tinha acontecido até ali. Iria acontecer.
E aconteceu. Ufa. Aconteceu. Marte provou para mim que tinha entrado em escorpião e que o ano enfim andaria. Dias depois, respirei fundo aliviada. Sorri. E depois achei graça. Lembrei que reencontrei uma amiga muito querida e conversa vai, conversa vem, eu disse que era cética. Eis que ela me interrompeu e perguntou: "Cética? Quem lê Susan Miller não é cética". Eu gargalhei.
É verdade. Gosto mesmo de acreditar nessas bobagens. Ou, como cantarolava Gal, ficar num papo de otário. Mas isso é da menor importância, da maior importância mesmo é que Marte mudou de posição e fez a vida funcionar. Viva Marte.
É verdade. Gosto mesmo de acreditar nessas bobagens. Ou, como cantarolava Gal, ficar num papo de otário. Mas isso é da menor importância, da maior importância mesmo é que Marte mudou de posição e fez a vida funcionar. Viva Marte.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
De mar, de sol, de lua
Um casal de amigos gringos, recém-pousado no Rio, me pergunta se gosto de morar no meu prédio. Respondo orgulhosa que sim, ainda mais porque da janela da sala vê-se a Pedra da Gávea e temos uma posição privilegiada para o Cristo.
A mulher ri e pergunta se sou religiosa quase que num sarcasmo de quem sabe que a resposta é não. Ao mesmo tempo que digo que não sou - com um sorriso no rosto de quem confessa o contraditório - ela emenda que o carioca tem uma devoção por esta imagem tal qual um prêmio que exibe na estante. Não discordei. E foi a deixa para eu tecer praticamente uma declaração de amor pelo purgatório da beleza e do caos ali, naquela mesa de bar.
Foi dessa conversa que me lembrei quando hoje fui pega com a real e concreta possibilidade de deixar a cidade. É um desejo que existe há algum tempo, é verdade. Mas só quando ele está próximo de se realizar é que o frio na barriga invade todo o seu corpo e você passa a olhar para cada detalhe ao seu redor como se estivesse se despedindo.
Foram sete anos e meio de pura paixão, que antes de sê-la era um sonho. Primeiro um sonho longínquo de uma adolescente que queria ir ver o mundo e toda a sua liberdade. E o mundo estava ali, a 150 km de distância. Depois um sonho vivo, que se concretizou e que - cá para nós -, vivi intensamente.
Os banhos de mar, de sol e de lua. Porque não se passa um verão nesta safada sem um mergulho noturno no Arpoador. As ciclovias do Aterro, da orla e da Lagoa que cruzei sempre admirando a geografia mais bela do planeta (sim, porque nós cariocas, visto que já me tornei uma, temos essa mania de dizer que tudo nosso é mais; como dizem que a esfirra do Largo do Machado é a melhor da cidade e o pessoal do Humaitá certamente acha que a da Cobal é que é).
Cada boteco, cada noite interminável na querida São Salvador, cada ida à praia esticada em um samba na Pedra com pés cheios de areia e cabelos despenteados e duros de sal. Aquela eterna reclamação de que "isso é uma província, é um absurdo às 2h não ter mais bar aberto para a gente beber". Tudo isso marca o espírito dessa cidade, que no meu ponto de vista só deveria ser habitada por bon vivants, afinal de contas é muita beleza e talento para ser feliz concentrados num lugar só. "Absurdo mesmo é ver TV nesse(a) - prefiro usar no feminino - Rio de Janeiro", foi o que pensei deslumbrada quando aqui cheguei.
E por muitos anos não vi mesmo. O encantamento com as mil possibilidades só me fazia querer saber e descobrir cada canto desse lugar. O fato é que você pode ser bon vivant de qualquer maneira nesta cidade. Acordando cedo para fazer a Trilha da Urca ou indo dormir às 6 depois de uma noite irada em Santa Teresa. E isso aprendi bem com os cariocas. Viver como se não houvesse amanhã. Se para ser convidada para ir à casa de alguém é melhor ter amigos forasteiros na cidade, no quesito carpe diem o carioca não se acanha em ser seu "brother".
Os defeitos, ah, eles a gente aprende a aceitá-los, como fazemos com o que ou quem amamos. Mas tudo que é arrebatador não nos sai da memória. Quero um novo mundo de possibilidades, porém sem esquecer essa grande paixão. Rio, você é e sempre será a mulher que mais amei. Obrigada por tudo e até a próxima.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Sonho de vida
Na próxima vida
Quero vir bon vivant
Ir dormir de manhã
Junto com os violeiros
Ou apenas baderneiros
Aqueles comprometidos
Apenas com o prazer de viver
Quero vir bon vivant
Ir dormir de manhã
Junto com os violeiros
Ou apenas baderneiros
Aqueles comprometidos
Apenas com o prazer de viver
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Dalí e a abertura da gaiolinha
Para Amir Haddad – o criador do Tá na Rua e um dos pioneiros
do teatro de rua como ele é feito atualmente – o lance é lubrificar a periquita.
Ou qualquer nome que você goste de dar para o órgão sexual feminino. Para Freud
talvez o gancho fosse dar um tiro imaginário no superego. Para um grande amigo
meu, o negócio é abrir a gaiolinha que todos nós temos dentro da nossa cabeça.
Eu gosto dessa ideia de destrancar a gaiolinha, é quase como
o objetivo de botar um óleo na frigideira que dá alcunha a este blog. É
inquietante essa gaiola, às vezes sinto que minha criatividade está toda presa
ali como um pássaro que pede pelamordedeus pra sair. E essa angústia se acentuou ao ver Dalí – o de
lá da Catalunha – de perto.
Ao ver a exposição que leva o nome do artista catalão no
CCBB, senti pulsar essa vontade de escancarar a gaiola. Explico: me
tranquilizou o fato de ver que mesmo Dalí – aquele gênio que fez parte do
surrealismo, que conseguiu pintar tão bem a questão do tempo, que se
imortalizou com seus relógios derretidos e nos faz lembrar dele quase 25 anos
depois de sua morte – teve sua gaiola fechada.
Ver obras comuns – e embora dizer que são comuns possa
parecer arrogante de minha parte– é animador. Ver Dalí pintando um caminho
qualquer com árvores ou fazendo retratos do seu pai dá uma esperança de que mesmo
com textos ruins hoje, um dia eu possa extravasar de uma forma mais libertária
e com mais loucura tudo o que me passa pela cabeça.
Em uma parede com capas de revistas nas quais Dalí aparece,
é perceptível esse pulo do gato em sua irreverência e liberdade. Mais novo, é
possível ver um olhar ainda ingênuo e pouco louco. Anos depois fica nítida a
maneira como se jogou na pintura a ponto de executar tão bem o surrealismo.
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